A
exploração
de minérios e a busca de tesouros escondidos
foi sempre um estimulante para o desejo de enriquecer
e lucrar, latente no coração do homem.
Tentativas de relaxar a ordem régia nunca
faltaram. Foi com este propósito que a 17
de Junho de 1738, Antonio Gonçalves de Araújo
adquiriu a sesmaria concedida a 8 de janeiro de 1730
a Manuel Francisco dos Santos Soledade, terreno onde
se suspeitava, desde muito tempo, existir minas de
prata, exatamente no local onde se encontra a povoação
de Araticum, município de Ubajara, no sopé da
Serra da Ibiapaba. A ordem régia de Dom João
V, datada de 27 de março de 1730, proibia
o estabelecimento de minas no Brasil, exceto nas
Gerais. Nem por isso as notícias sobre existência
de metais preciosos no subsolo do Ceará deixaram
de ativar a avidez de aventureiros que a todo custo
tentavam conseguir a suspensão da determinação
real. Antonio Gonçalves , homem perseverante,
arbitrário e ganancioso, enviou ao Conselho
Ultramarino requerimento, com longa exposição
de motivos, solicitando permissão para explorar
minas de prata existentes em terras de sua propriedade,
tendo em vista as enormes vantagens para a fazenda
real.
Corria o boato de que havia “tanta prata na ladeira de Ubajara
que os indios a derretiam como caieiras deitando lenha em cima”. Diante
de tais informações, o Conselho Ultramarino não tergiversou
em expedir Provisão Régia, datada de 20 de abril de 1739,
concedendo ao peticiante autorização para explorar a mina.
Antonio Gonçalves deu início imediato aos trabalhos utilizando
como mão-de-obra dezenas de índios fortemente motivados pelo salário
e pela curiosidade. O entusiasmo inicial foi cedo arrefecendo em face da estafante
labuta e Gonçalves sentiu necessidade de reforçar seu prestígio
e influência, tendo recorrido uma vez ao Conselho Ultramarino solicitando
privilégios de jurisdição e autoridade para poder mais livremente
conseguir a sujeição da indiada. Realmente obteve o que desejava,
uma vez que a provisão régia de 3 de outubro de 1740 o nomeava
superintendente oficial da mineração, o que não deixou de
provocar atritos de autoridade com o Ouvidor Manuel de Farias que se tornou ferrenho
opositor da empresa.
Animado
pelos privilégios que lhe concedia o Reino,
o superintendente chama da Europa uma comissão
de mestres e oficiais experimentados em fundir e
separar metais. A 15 de Outubro de 1742, enquanto
os trabalhos de escavação continuavam
em ritmo acelerado, é expedida nova carta
régia concedendo permissão para que
a comissão composta dos mestres João
Fontenelle (francês), João de Oliveira
Carnide e Estevão Gomes Madeira (portugueses)
viajasse para Araticum com o fim de fazer os necessários
ensaios do material selecionado na jazida. A comissão
desembarcou na Barra do Acaraú e chegou ao
local do acampamento de Antonio Gonçalves
de Araújo a 9 de abril de 1743, prestou juramento
perante o ouvidor a 22 do mesmo mês e iniciou
os trabalhos a 27.
Diante dos primeiros pareceres negativos fornecidos pelos mestres europeus,
o superintendente, revoltado, se desentende com a comissão, ameaça
seus componentes de morte e denuncia o ouvidor como responsável pela
má vontade encontrada nos técnicos comissionados. O desentendimento
deu motivo a sérios motins e o superintendente representou em juizo
contra os membros da comissão e contra o ouvidor, acusados de tramarem
mancomunados contra sua empresa. Aposentado em Araticum, a 21 de Outubro de
1742, o Juiz Ordinário Domingos Alves Ribeiro dá início à longa
e minuciosa devassa para apurar responsabilidades, sendo ouvidas trinta testemunhas,
todas índios, “do arraial da Ubajara”, trabalhadores na
escavação. Os dois portugueses são acusados de roubo e
foram presos, por ordem do Juiz, meses depois no adro da Matriz de São
Gonçalo dos Cocos onde se haviam homiziado. Enquanto isso, o Ouvidor,
maliciosamente. Toma duas providências: a 25 de Julho de 1744 fez desembarcar
para o Reino amostras de pedras comuns tiradas das escavações
para serem examinadas nos precários laboratórios de Lisboa e,
a 20 de Janeiro de 1745, denuncia diretamente ao Reino os atos de violência
e arbitrariedades cometidas por Antonio Gonçalves.O
Ouvidor conseguiu o que desejava, pois o cientista Guilherme Dugood, em parecer
datado de 22 de fevereiro de 1745, considerou “pedras comuns de enxofre
e cobre” as amostras por ele examinadas, e a ordem Régia, de 15
de Novembro do mesmo ano, ordena que seja demitido o superintendente. Os membros
da comissão foram absolvidos e retornaram à Europa, com exceção
de Jean Fontenelle que preferiu permanecer na Ibiapaba, tendo fixado residência
em Viçosa onde constituiu família.
Ainda como última tentativa de salvar o trabalho ingente de tantos anos,
Antonio Gonçalves de Araújo, em longo relatório dirigido
ao Rei e datado de 2 de Abril de 1746, reafirma a existência de prata,
cobre, chumbo e ferro na mina de Araticum e denuncia o Ouvidor, por “ter
roubado terras e cavalos que lhe pertenciam”. Mas, tudo em vão,
o ex - superintendente não foi mais acreditado na corte e teve que desistir
da agitada e tumultuária empresa. Visionário ou ávido
de lucro, o certo é que Antonio Gonçalves de Araújo realizou
trabalho persistente, vencendo difíceis obstáculos para encontrar
riquezas, ao sopé da Ibiapaba.
Assim
nasceu a Gruta... Sabendo-se
que o atual povoado de Araticum dista apenas
dois quilômetros da entrada da Gruta e
que dezenas de índios durante mais de
seis anos escavaram a base da serra, na ladeira
da Ubajara, como atestam documentos da época,
firmo-me na opinião de ter sido esta aventura
de mineração a origem da famosa
caverna. No interior da escavação,
erodidas e sujeitas, durante mais de duzentos
anos a toda sorte de intempérie, foram
aparecendo as projeções vistosas,
do teto e do solo calcários, constituídas
pela precipitação do carbonato
de cálcio contido nas águas de
circulação subterrânea, nascendo
daí a bela formação das
estalactites e estalagmites que são as
atrações mais sugestivas daquela
caverna impressionante. Espero que o teleférico
de Ubajara, não só transporte milhares
de turistas para uma espécie de viagem
ao centro da terra, mas principalmente desperte
o interesse do povo para conhecer também
as belezas culturais e as riquezas espirituais
da Ibiapaba.
Texto
de Pe. Fco Sadoc de Araújo