Pesquisadores
analisam fóssil de urso encontrado em Ubajara
Reportagem da Revista Globo Ciência do ano 1978
O
fóssil que foi encontrado por uma equipe de
espeleólogos da USP em 1978 na Gruta
de Ubajara, foi estudado detalhadamente
por Eleonora Trajano e Ferrarezzi. A princípio,
o animal foi identificado como pertencente a espécie
extinta Arctotherium brasiliense, catalogado como
o primeiro registro de urso no nordeste brasileiro. " Reexaminando
este crânio, no entanto, notamos várias
diferenças em relação ao fóssil
encontrado em Minas e a outro achado em Tarija, na
Bolívia, ambos também classificados
como Arctotherium brasiliense", explica Eleonora.
Segundo a pesquisadora, o exemplar de Ubajara apresenta,
em geral, medidas maiores quanto ao comprimento total
e ao tamanho da caixa craniana. Tem, no
entanto, uma face ainda achatada que os outros fósseis descobertos anteriormente. " O
Urso que viveu no Ceará teria as dimensões semelhantes 'as do
atual urso negro tibetano, ou seja, um comprimento que pode variar de 1,20m
a 1,80m", calcula ela. Já o urso que vivia na Bahia media sem a
cabeça e a cauda, entre 90 centímetros e 1 metro, e tinha 50
centímetros de altura. Pelo menos são essas as dimensões
do fóssil encontrado em 1993 na Toca da Boa Vista, uma gruta localizada
no município de Campo Formoso, na Bahia.
Pertencente
ao A. Brasiliense ou outras espécies, um ponto
esses ursos tinham em comum: segundo os pesquisadores,
todos os ursos sul-americanos tiveram origem em espécies
norte-americanas que vieram para o sul, diferenciaram-se
e tornaram-se outras espécies. No entanto,
ainda existem dúvidas quanto 'a introdução
e adaptação desses animais no Brasil.
Para a bióloga Eleonora Trajano, a descoberta
de fósseis de ursos no Nordeste Brasileiro é um
indicador que a região já tece um clima
frio num passado remoto. " A presença
de ursos no Nordeste dá uma medida de quão
intensos foram os resfriamentos nos ciclos glaciais",
explica. Só para lembrar, a última
glaciação acotneceu entre 24.000 e
12.700 anos atrás, época provável
da extinção dos ursos brasileiros.
Outra hipótese levantada pela pesquisadora, baseada no estudo do crânio
encontrado em Ubajara, é de que pode ter havido na região uma
vegetação do tipo savana. " É provável que
os ursos extintos tivessem os mesmos hábitos de vida dos seus parentes
modernos. Eles não se adaptariam a florestas fechadas, que só ocorrem
em climas quentes e úmidos".