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A Ibiapaba Francesa

Sabemos que desde 1590, pelo menos, franceses sob o comando de Bombille se estabeleceram naquela ubertosa serra onde conseguiram as simpatias de Irapuã e de Jeropariaçu, principais dos indígenas tabajaras que habitavam o planalto. Em 1604, quando Pero Coelho, primeiro português a tentar a conquista das terras cearenses, chegou à Ibiapaba, lá encontrou êsses franceses, já senhores da situação, opondo-lhe sangrenta resistência. Da obra civilizadora destes conquistadores gauleses que residiram por quinze anos, quase nada se sabe, já que quase tudo se acha envolto nas névoas das imprecisões históricas por carência de documentos e de interesse. Acredito que se fosse incentivado um pesquisador, muita coisa encontraria nos arquivos de França, sobre estes iniciadores de nossa civilização, verdadeiros construtores de nossa proto-história. Não foi lusa, portanto, a iniciativa da colonização do Ceará, nem ela teve início no litoral.
Os tabajaras, primeiros habitantes daquela serra, chegaram a possuir uma evoluída organização social, democraticamente estruturada, com governos exercidos por assembléias e conselhos, a par de impressionante senso ético nas concepções sobre a família, a propriedade, a honra e a religião, como tão bem descreveu o Pe. Ascenso Gago, Carta Anua de 1696, vivamente admirado com o que presenciou no início de seus trabalhos missionários naquela região. Qual o sociólogo cearense que se interessou por estes dados? * Por Pe. Fco Sadoc de Araújo

Valores Culturais

O sacrifício do Pe. Francisco Pinto, barbaramente assassinado a 11 de janeiro de 1608, e as duas tentativas de fixação dos jesuítas em Viçosa Real nos períodos de 1656 a 1662 e de 1691 a 1759, ano este em que foram expulsos por ordem de Pombal, são fatos que tiveram imensa influência em toda a história cearense e geralmente são descritos como episódios isolados, simplesmente.
Poucas pessoas sabem que nasceu na Ibiapaba a primeira brasileira nata que conquistou a palma do martírio cristão. Realmente, a atitude da índia Joana Nanupatiba testemunhando firme fidelidade a seu matrimônio pelo derramamento de sangue, é digno de constar nas páginas do martirológico. Cruelmente trucidada a golpes de faca no domingo, 5 de agosto de 1753, por preferir a morte à perpetração de um adultério, respondeu corajosamente ao agressor de sua honra: “Não permito ação que possa ofender ao meu Deus e ao meu esposo”.
Este fato impressionou vivamente o Barão de Studart que o descreveu detalhadamente em suas “Notas para a História do Ceará”.

 

Palavras do Padre Ascenso Gago, missionário jesuíta que implantou a aldeia tabajara na Serra da Ibiapaba, por volta de 1695 :

“É esta nação Tabajara, entre todas as do Brasil, a de melhor juízo. Não resolvem coisa alguma de importância sem consulta e para isso costumam ter em meio da aldeia uma casa de Parlamento, aberta por todas as partes, para que todos os que quiserem possam ouvir o que nela se determina. Havendo-se de consultar alguma coisa, manda o principal armar uma rede em que se deita e o mesmo fazem os fidalgos da aldeia, e todos os velhos que são chamados a conselho. Propõe o principal, ouve os pareceres dos mais, propõem-se as dificuldades, resolvem-se as dúvidas e depois de altercado o ponto, determina o principal o que há de fazer. São eloqüentes nos seus arrazoados, propõem qualquer negócio com boas razões e polidez de palavras (... )”.

UM ANO DEPOIS – O Desembargador Christovão S de Reimão, ouvidor da capitania da Paraíba, em 1696 recomendava ao rei a criação de uma câmara, com juízes, vereadores e escrivão para que houvesse um funcionamento mais adequado da Justiça na capitania do Ceará.